sexta-feira, 5 de março de 2010

Colheita de filhos

Um viúvo de idade avançada, proprietário de diversos bens, resolveu facilitar a vida dos filhos. Desfez-se completamente de suas posses, em nome dos descendentes, prevendo sérios desentendimentos após a sua morte. Pensando na harmonia da família, decidiu manter apenas o necessário para a sua sobrevivência, até porque era portador de doença grave, sem esperança de cura. O dinheiro que recebia da aposentadoria era mais do que suficiente para pagar aluguel, alimentação, táxi, remédios, e ainda sobrava para comprar presentes para os netos.

Após visita de rotina ao médico, foi informado de que acabara de ser desenvolvido, na Europa, um tratamento para a sua doença, com total perspectiva de cura, mas de custo elevadíssimo. O viúvo animou-se, lembrando dos diversos bens que havia transmitido aos filhos. Concluiu a consulta dizendo ao médico que gostaria de iniciar o tratamento tão logo seus filhos transformassem em dinheiro os bens a eles doados.

Porém, nenhum dos filhos aceitou devolver a herança adiantada. Um havia reformado a mansão e já estava nela morando. Outro arrendou a fazenda, e justificou que perderia muito dinheiro se desfizesse o negócio. O terceiro já havia trocado o imenso imóvel por diversos apartamentos pequenos para alugar. E a filha mais nova, ao receber o telefonema do pai, fingiu entrar num túnel, nunca mais funcionando seu celular.

Essa história foi contada pelo meu professor, ao introduzir a disciplina de direito das sucessões. É claro que tem muitos "floreios" vindos da minha cabeça, mas o resumo da história é real. O pai quis adiantar a herança, pensando na comodidade dos filhos, para evitar as famosas brigas post mortem. Mas quando deles precisou, para curar sua doença, recebeu apenas ingratidão.

Houve quem falasse na turma que, no mínimo, o velho deveria ter aprontado ao longo de sua existência, para que os próprios filhos lhe virassem as costas. É o que frequentemente se vê por aí, muitos idosos terminando seus dias em asilos, sem visita de nenhum familiar. Há muitas histórias de pessoas que foram más durante toda a vida. Na velhice, colhem apenas o desamparo, pois nada de bom foi plantado.

Também existem tantas outras histórias, de maus tratos contra idosos, que tem sua aposentaria literalmente roubada por familiares. Sofrem agressões, não só físicas quanto morais. Ao contrário de culturas orientais, as quais os mais velhos são o centro da família, no ocidente os mais novos são as estrelas. Portanto, a tendência é que o velho fique cada vez mais excluído do núcleo familiar.

Na história contada pelo professor, mesmo que o viúvo tivesse sido o maior dos carrascos (o que não era o caso), não é possível aceitar tamanha ingratidão. Transcorrido um ano do fato, o  professor não teve mais notícias desse pai. Imagino que já tenha "passado dessa para melhor". Não deve ter morrido pela doença, mas de desgosto.

Nenhum comentário:

Postar um comentário