Tornei-me vegetariana há cinco anos e meio. É claro que não acordei um dia gritando "não comerei mais carne!", nem foi opção por outra dieta da moda. Havia anos que eu me sentia mal quando lembrava que aquilo em meu prato tinha sido um animal. Desde muito nova fui muito apegada aos animais, minhas primeiras perdas foram os cães e gatos da família.
Quando fiz o curso de formação militar, ao aproximar-se da semana do acampamento, um dos instrutores passou a implicar comigo, dizendo que eu teria que matar a galinha. Então começou o meu desespero, como eu faria isso? Duas das minhas três colegas compartilharam da minha aflição, dizendo que elas também não teriam coragem. A terceira colega, sempre muito racional, disse-nos que era hipocrisia sentir pena de matar um animal mas ser capaz de comê-lo. É claro que eu fiquei furiosa, repetindo "nada a ver". Mas no fundo eu pensava que existia uma pontinha de razão nas palavras dela, pois eu precisava esquecer que o pedaço de carne que eu mastigava já havia sido uma vaca, uma galinha ou um peixe. E principalmente, tinha passado por muito sofrimento até chegar ao meu prato.
Menos mal que em nosso acampamento não teve a instrução de sobrevivência, livrando-me da grande probabilidade de ser escolhida para matar uma galinha ou um coelho. Anos mais tarde, uma conhecida contou-me que, quando passou pelo acampamento, não só teve que matar um coelho como também foi obrigada a cuidá-lo durante três dias, antes da instrução. Não podia desgrudar nem do fuzil, nem do coelho, noite e dia. Até que matou-o e comeu-o. E sofre quando lembra disso.
Mas então chegou o momento de parar de vez. Fui transferida para trabalhar em Porto Alegre. Meu então noivo, que morava em Brasília, ajudou-me na mudança e passou suas férias comigo no sul. Descobriu uma churrascaria na Getúlio Vargas, que servia espeto corrido a R$ 9,90. Acostumado a pagar o triplo na capital federal, resolveu que queria ir diariamente na tal churrascaria. Eu, que estava comendo cada vez menos carne, passei a não gostar mais. Dali para virar vegerariana, foram poucos meses.
Mas as pessoas resistem à minha ideia. Sempre tenho que ouvir "mas tu não sentes peninha das plantinhas também?" Sim, sinto pena, mas quando derrubam árvores, quando fazem queimadas, quando destroem impiedosamente a natureza. Não gosto de ver lâmpada acesa desnecessariamente e desligo o ar condicionado quando saio da minha sala no trabalho. Não sou eu quem paga a conta diretamente, mas isso tem um preço para a coletividade. A minha ação isolada pode parecer inócua e era exatamente assim que eu pensava quando carnívora: o que adianta apenas eu parar de comer carne? Milhões de animais continuarão a ser mortos diariamente e pior, com muita crueldade. Mas interessa a minha consciência, pelo menos. Não tento convencer ninguém mas a recíproca não é verdadeira. A piadinha sobre a pobre alface que eu como sempre se repete, vinda de pessoas muito estudadas e supostamente inteligentes.

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