domingo, 28 de fevereiro de 2010

Tempo

Vivemos a era da mais mais completa falta de tempo. Virou desculpa para tudo. Não ir ao encontro chato, não ajudar um amigo, esquecer da família. Não atender ao telefone, tampouco retornar a ligação. O dia tem 24 horas para todo mundo, mas alguns gostam de supervalorizar as suas. Ter tempo é estabelecer prioridades. Não vai poder ir na festinha da tia-avó? Há coisas melhores a fazer no mesmo horário. Hoje está difícil para dar aquela mão ao amigo de infância? A reprise do filme na TV está parecendo bem mais interessante. Não pude atender ao telefone porque estava numa reunião? Também não retornei porque simplesmente não queria falar com você.

Não adianta, o tempo somos nós que fazemos. Qual o problema em dormir 15 minutos mais tarde e finalmente resolver uma situação que foi ficando para depois, porque nossa agenda está "assim, ó" (é para imaginar os dedinhos virados para cima se juntando e se afastando). Dar atenção uma vez por ano à sua tia-avó não vai arrancar pedaço. Ajudar o seu amigo de infância também não, daqui a pouco é você quem vai precisar dele. Custa ligar de volta e exercer a civilidade?

Certo, boa parte da crítica serve para mim, amanhã retornarão as aulas e minhas palavras chaves passarão a ser "estou sem tempo, preciso estudar".

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

Etiqueta

Não, eu não vou falar sobre modos à mesa, boas maneiras ou educação. Apesar de que seria um assunto bem extenso, pela constante falta de noção de algumas pessoas. Também não sou um exemplo à mesa, pois meu cardápio é limitado (vegetariana...), é sempre chato recusar algum prato... e derrubar coisas é comigo mesma. A etiqueta a que me refiro é aquele pedaço de tecido costurado nas confecções, cuja grife é endeusada por determinadas pessoas.

Certo dia chuvoso, recebi a visita de um amigo, que andava na rua sem guarda-chuva. Chegou ensopado e então ofereci-me para colocar seu blusão de lã na secadora. Depois de um tempo, retirei o blusão da máquina. Estava no avesso e pude ver que nele havia umas "trezentas" etiquetas penduradas, daquelas compridas. Chegavam quase a se enrolar. Como eu tenho uma aversão a etiquetas, pois irritam a minha pele, costumo cortá-las logo após comprar uma roupa. Então, ofereci-me para cortar as etiquetas do blusão do meu amigo. Ele deixou a educação de lado (voltemos à introdução desse texto) e vociferou que eu não as cortasse, esquecendo que não só estava na minha casa, como eu havia acabado de lhe prestar um favor secando sua roupa. Então olhei melhor. Claro, o blusão tinha pedigree. Provavelmente ao ter suas várias etiquetas cortadas, não poderia mais o rico blusão ser ostentado por aí, em ocasiões como essa, após um banho de chuva.

É claro que uma marca reconhecida atesta a qualidade de uma roupa. Nos dá a tranquilidade de que podemos lavá-la sem ter sua numeração reduzida, a cor vai se manter por muito mais tempo, o tecido não provocará alergia. Mas é necessário saber se estamos pagando pela qualidade ou o plus se refere apenas ao nome registrado.

Li numa revista um artigo, escrito por uma estilista, que se diz satisfeita pela proliferação de novos talentos no ramo da moda. Isso fez os preços baixarem. Afirmou que, por saber o custo de tecidos e aviamentos, se nega a pagar preços abusivos. E que os grandes magazines estão popularizando roupas de qualidade e bom gosto.

Então, por que ainda há pessoas que pagam fortunas para ter roupas de marca? E pior, precisam alardear que estão usando a grife famosa? Se assim não fosse, meu amigo não teria se importado em ter suas etiquetas do blusão recortadas. No máximo diria que eu não precisava me incomodar, pois os penduricalhos não lhe causavam mal. Mas um xilique por causa da Zara... que, conforme disse minha filha, "nem é tão wow assim"...


domingo, 21 de fevereiro de 2010

Vegetariana

Tornei-me vegetariana há cinco anos e meio. É claro que não acordei um dia gritando "não comerei mais carne!", nem foi opção por outra dieta da moda. Havia anos que eu me sentia mal quando lembrava que aquilo em meu prato tinha sido um animal. Desde muito nova fui muito apegada aos animais, minhas primeiras perdas foram os cães e gatos da família.

Quando fiz o curso de formação militar, ao aproximar-se da semana do acampamento, um dos instrutores passou a implicar comigo, dizendo que eu teria que matar a galinha. Então começou o meu desespero, como eu faria isso? Duas das minhas três colegas compartilharam da minha aflição, dizendo que elas também não teriam coragem. A terceira colega, sempre muito racional, disse-nos que era hipocrisia sentir pena de matar um animal mas ser capaz de comê-lo. É claro que eu fiquei furiosa, repetindo "nada a ver". Mas no fundo eu pensava que existia uma pontinha de razão nas palavras dela, pois eu precisava esquecer que o pedaço de carne que eu mastigava já havia sido uma vaca, uma galinha ou um peixe. E principalmente, tinha passado por muito sofrimento até chegar ao meu prato.

Menos mal que em nosso acampamento não teve a instrução de sobrevivência, livrando-me da grande probabilidade de ser escolhida para matar uma galinha ou um coelho. Anos mais tarde, uma conhecida contou-me que, quando passou pelo acampamento, não só teve que matar um coelho como também foi obrigada a cuidá-lo durante três dias, antes da instrução. Não podia desgrudar nem do fuzil, nem do coelho, noite e dia. Até que matou-o e comeu-o. E sofre quando lembra disso.

Mas então chegou o momento de parar de vez. Fui transferida para trabalhar em Porto Alegre. Meu então noivo, que morava em Brasília, ajudou-me na mudança e passou suas férias comigo no sul. Descobriu uma churrascaria na Getúlio Vargas, que servia espeto corrido a R$ 9,90. Acostumado a pagar o triplo na capital federal, resolveu que queria ir diariamente na tal churrascaria. Eu, que estava comendo cada vez menos carne, passei a não gostar mais. Dali para virar vegerariana, foram poucos meses.

Mas as pessoas resistem à minha ideia. Sempre tenho que ouvir "mas tu não sentes peninha das plantinhas também?" Sim, sinto pena, mas quando derrubam árvores, quando fazem queimadas, quando destroem impiedosamente a natureza. Não gosto de ver lâmpada acesa desnecessariamente e desligo o ar condicionado quando saio da minha sala no trabalho. Não sou eu quem paga a conta diretamente, mas isso tem um preço para a coletividade. A minha ação isolada pode parecer inócua e era exatamente assim que eu pensava quando carnívora: o que adianta apenas eu parar de comer carne? Milhões de animais continuarão a ser mortos diariamente e pior, com muita crueldade. Mas interessa a minha consciência, pelo menos. Não tento convencer ninguém mas a recíproca não é verdadeira. A piadinha sobre a pobre alface que eu como sempre se repete, vinda de pessoas muito estudadas e supostamente inteligentes.