Imagine um torcedor fanático tendo que dar aula à noite, quando seu time enfrenta adversário de outro país. Tem a brilhante ideia de programar a gravação do jogo no canal de TV. Sabendo que há outros torcedores fanáticos em sala, que acompanham a partida em tempo real, pela internet ou pelo rádio, com fone de ouvidos, toma a precaução de advertir toda a turma que não quer ouvir nenhum comentário sobre o jogo. Explica que pretende assistir toda a partida tão logo chegue em casa. A advertência durou longos minutos, transformando-se em verdadeira súplica.
A aula transcorreu como sempre, professor bem-humorado, piadas, exemplos envolvendo os alunos, enfim, da forma como todos estão acostumados e, por isso mesmo, admiram tanto o mestre.
Então o inusitado aconteceu. Uma aluna, acompanhando a narração pelo rádio, falou: "dois a zero". O pessoal mais próximo tentou lhe conter, dizendo para não falar, o professor havia pedido! Mas ele acabou dirigindo sua atenção para onde o placar estava sendo anunciado e a aluna repetiu, só que mais alto: DOIS A ZERO.
O professor murchou. Balançou a cabeça e falou baixinho: "eu pedi..."
Se antes andava de um lado para o outro da sala, agora passou a explicar a matéria lá na frente, na classe do professor, imóvel como um de cujus. Todos se olhavam incrédulos com a divulgação não desejada, mesmo após sincero pedido do professor. A protagonista não, continuou indiferente ouvindo a partida.
Dali em diante não teve comentário cheio de graça que mudasse o tom fúnebre do professor. Mesmo quando teve que explicar como se escrevia "nuncupativo". Não é nu-cu, é nun-cu. O pessoal já brincava: " é nun-cu qualquer?" Ou então: "pativo? da Pati?". O professor sorriu só de um lado da boca, na verdade ainda pensava na surpresa estragada.
A aula acabou mais cedo. A aluna boca grande foi embora, dizendo-se inocente de qualquer acusação. O professor despediu-se desolado. Mas há dois fatos que amenizam a situação. O primeiro é que o time dele acabou fazendo um gol, o que era suficiente para vencer o time adversário (coisas de futebol, perde mas ganha), o que transformaria facilmente a consternação em alegria. O segundo é que, mesmo que toda a turma ficasse muda do início ao fim da aula, o professor não conseguiria chegar em casa sem saber "o fim do filme". A rua estava repleta de torcedores devidamente fardados, gritando o resultado.